Hoje
Curvas estreitas, olhares carregados
De um gosto longe dessa esquina. Onde estava?
Escura, muito curva, que acaba passando
Batida, atravessando como uma
Perda no beco. Largada no lixo?
Aquele resto de sanduíche, que ela,
Simplesmente linda, aquela garota
Empurrava com muito esforço, já
Sem vida, sem sede mas sedado...
Dava pra ver seus olhos cansados...
Os mesmos pararam de passar por aqui e...
Levaram ao fim da dose! Acabei com um gole,
Ela babava feito crocodílo, porém lânguida...
A fome já tinha passado por uma outra
Rua esbugalhada sem romper os restos
Que se abandonam, ainda dava pra ver.
Ainda vejo aquele cão sarnento que se cossa,ele
Me incomoda com seu sofrimento...
Nesse olhar foi possível de sentir e de se perder
Toda a vontade.
Hoje a noite é perigosa,
Bebo e trepido sempre
No meu próprio vômito...
Acordei com sono, com vontade de
Continuar num estado assim, cataléptico.
Ontem eu caí naquele poço,
Aquele que eu havia fechado pra não cair de novo,
Pra não me escorrer durante a chuva,
Pra não passar mais na sua rua...
Fugi enfim dessa vida de merda, essa
Que ainda tenta me passar a
Perna, que me atenta e não consegue
Me botar a culpa, nem ao menos
Me convence de voltar pra casa...
Você pra mim até parece uma ameaça,
Mas isso tudo logo passa, por mim, pelo
Viaduto e, acaba voltando pro seu
Próprio bem, ao seu pequeno reduto.
Acabou de passar por aqui, o inevitável,
Um passeio desencontrado, e como sempre,
Comecei olhar pra outro lado.
Queria eu cair de boca, com essa minha
Vida dispersa e meio rouca.
Mais um dia se passa e como sempre,
Eu caindo nas calçadas, Vendo os
Carros e a vida a passar por mim,
Sem a mínima graça...
Lembrei apenas daquele olhar
Que só me escracha, que
Assim continua... Me tirando
Aquele afago, com toda essa calma...
Que também se acaba
Agora durmo pra não sonhar com
Aquilo que se passa, horas e horas
Vão se percorrendo.
Continuo eu, caminhando, tentando
Abrir a porta de fora do meu mundo...
Quem sabe assim dessa maneira,
Eu acabe conseguindo algum refúgio...
Eu sei que é assim,
Nada que seja assim, eu sei... Que um arranhão e,
Outros passarão por mim, como num piscar
De olhos vazios, abruptos, e sedentos por carinho e,
eu sempre sozinho, sempre aqui para que...
Me abandonem de novo, me encham de lágrimas,
Esvaziem meu corpo, meu sofrimento, minha angústia...
Não tentem amparar a minha dor, ainda sofro, ainda tenho muita,
E tanta dor que nem mesmo sinto, nem mesmo me preocupo,
Nem ao mesmo penso nisso, preciso descansar, ouvir aquela música.
Penso eu que, isso é passageiro, derradeiro...
Um sopro que se perde no caminho
Em meio a chuva que escorre a caminho do esgoto,
Sujo como o sangue limpo dos inocentes
Na mão de porcos insanos, sem escrúpulo nem culpa,
Sem carinho, sem nada, nada que valha a pena...
Nada, apenas mais nada...
HOJE IMPERDÍVEL
Isso foi o melhor balcão de bar que eu conheci, no meio da rua, desleixado como o amanhecer das calçadas de frente aos bares que eu dormia na adolescência de Londrina. Muito a vontade e, vendo o melhor ângulo da cena da noite que aconteceu naquele bar. Numa noite dessas é difícil não reparar nos detalhes da diversão estampada no sorriso dos amigos. Um copo, um cigarro, muito tempo tirando sarro... Ah, bons tempos aqueles, aqueles os quais eu não tinha medo de acordar com o sol na cara e babando com a boca esfregada no meio fio, sem hora pra chegar ou pra sair, nem ao menos pra voltar. Pobre daquela senhora que me esperava da janela sem saber se eu voltaria aquele dia e, se eu voltasse, será que estaria por inteiro? Os vizinhos entortando o pescoço ao redor do quintal enquanto ela me dizia:
- Vá pro banheiro, eu vou te preparar um café... Você precisa dormir rapaz.
Me lembro também daquelas garotas que freqüentavam o Bar Brasil, que faziam parte de um grupo de jovens de uma igreja católica, que eu nem mesmo lembro o nome. Acabei entrando no grupo de jovens apenas com um único propósito, pegar essas garotas que me tiravam o sono e, que me deixavam ávido e libidinoso... Hoje vejo as coisas com uma certa preocupação que naquela época não pensava nem um pouco que pudesse um dia existir na minha cabeça. Uma filha que não vejo há muito tempo, uma mãe que até hoje me espera preocupada na janela, amigos me tirando do redor das confusões, um amor que parece não se cansar das madrugadas, dos tapas, nem dessas lágrimas perdidas por nada. É sempre bom estar assim, pronto para aquilo que não estamos esperando. Gosto e muito do riso bêbado dos amigos no estancar da noite arrebentando o dia até que não consigam ficar mais de pé, e mesmo assim não conseguem ir embora por apenas não quererem abandonar o barco naufrago dessa vida carcomida, roubada e insolúvel que vivemos...
Talvez isso seja a grande razão de nos encontrarmos dia após dia, com tanta sede, no mesmo bar, como de costume! Um brinde!!!
A noite sempre
Me quebrou vários
Copos na cara e,
Mesmo assim,
Acabou me acordando
Com seus cacos.
Você se estancou
Dentro de mim,
Minha querida...
Tetei acordar você
Pro dia seguinte
Meu bem.
Não foi minha culpa...
Estava eu com muito sono!
Queria estar relaxado,
Não consegui ficar livre
Como aquele beijo roubado...
Meu bem...
Eu...
Você e eu
Na tua cama,
Com as cortinas
Sempre fechadas.
Digo assim
Com as portas abertas, pra nós.
Vem cá garota,
Vem cá, minha garota...
Sempre a me esperar
Com pouca roupa,
Vem cá grande garota,
Eu mesmo posso
Despir o seu olhar
Vem cá, meu bem,
Vem cá minha garota,
Vem cá!
Hoje!!!
Imperdível!
Sabe, a gente, digo, eu as vezes me engano. Quase sempre a gente espera que as coisas podessem apenas acontecer, talvez de outra maneira. Uma situação mais amena, sem muitos detalhes. Na verdade eu nunca tive muito jeito com as coisas mesmo, tentei não esperar mais do isso, mas tem uma coisa que até hoje não me alcança, algo que mesmo sem conhecer realmente, acabou me dando de certo modo uma angústia, algumas dores sem pancadas, apenas dores de nem ao menos conseguir chorar. Tá sendo bem foda pra mim enfrentar isso. Passar por coisas pesadas já estou bem acostumado, mas é que... Eu to num período muito ingremi de desaprovação porra! As vezes a gente só ta afim de atravessar a rua pra pegar uma cerveja e um cigarro... O que eu to tentando dizer é que eu sofro facilmente pelo o que eu vejo nas ruas e na vida que eu to levando. Talvez eu esteja sendo um pouco piegas, mas é que eu não esperava chegar ao ponto de não conseguir deixar de sentir, só isso. Eu tento dormir, mas mesmo espantando os fantamas que me acompanham, tenho uma insônia desenfreada. Queria eu que fosse o efeito das substâncias que eu consumo dia a dia, mas essa situação tá muita além do que isso... Espero acordar e poder rir com meus amigos nos próximos dias!

Desde que a lua foi embora,
Fiquei aqui,
Acompanhado do vazio aspero e,
Contagioso...
Não lembro mais a forma do seu rosto...
Talvez ele tenha se dissolvido, no tempo,
No vento, na curva dobrada e abandonada
Por aquele dia de chuva que eu andava
Como um rato se esgueirando sob o lixo e...
Eu sempre a procurar, quem sabe algum vestígio,
Um lugar mesmo que sombrio, assim mesmo procurando...
Apenas alguma maneira de apagar o retrato
Da lembrança, que de fato, não se vai,
Mesmo me mandando embora...
Essa voz dissipada, retalhada de fome,
Com sono, com...
Com tudo, calado e esmigalhado
Pela falta de uma cena que ao menos seja,
Completa e livre dessa mágoa...

Foto de Denise Molinaro
Um dia,
Tantos bares a passar
Por mim, poucas doses desse
Seu olhar... Sede, muita sede ao
Cair dos olhos derrubados em gotas,
Mutuo ainda a névoa que me acompanha
Ao escorregar naquela curva de balcão,
Ainda ontem, deixei um gole passear pelo tapete...
Em meio ao acaso, sem descaso por você,
Eu me servi de mais um trago...
Caminho sempre e, ainda sozinho,
Caminho sempre cambaleante sem olhar para o que se foi...
Para o que se esvai e,
Caminho sem qualquer rumo.
Não procuro,
Apenas peço carona.
Pra onde nem sei, sei lá, me deixe alí...
Respirar, faz tempo que meu peito me aperta,
Ainda ontem fiquei alerta,
Procurando de onde vinha aquela fumaça,
De onde veio todo aquele receio...
Faz tempo que me falta tempo,
Pra olhar pela janela...
Já faz tanto tempo que não abro a porta,
Faz tempo... Que faltou tempo
...
SEQUELAS
Respirava mal, sentia seu pulmão
Saltando do último andar,
Jorrava perdões ao cortar os pulsos,
Aos seus olhos
Não haviam mais uma gota
Sequer de sentido,
Já havia sentido muito... Sinto muito e,
Ainda assim, sentido tinha sido
Algum... E sentindo
Derramavamos-nus end lágrimas.
Parou de fever o estômago,
Escarrou os detalhes...
Soçobraram-se nos olhares predidos...
Muito frio ainda sinto!
Bocejos por falta de sono, mesmo dormindo
Nos braços, em nossos abraços...
Passo a passo,
Nosso marca-passo,
Em descompasso.
Agora mal estancado o medo,
De sentir, respirar ou olhar,
Por voltar a caminhar?!
Se foi,
Mas já tinha cumprido até o aviso prévio,
Feito hora extra
E, mesmo assim
Nada evitou suas terriveis
Dores,
Muitas dores de cabeça!
Acabou todo o peso, seu andar
menos desgastado, fôlego de sobra,
E o alívio pra beber todas
Até de madrugada...
Agora uma única certeza,
A dor acaba e mais
Nenhum vício do mesmo remédio
Fim,
Lá se foi todo o tédio!
Faz tempo e eu sem sono,
Sem dor, sem culpa nenhuma
Não vejo mais teus olhos tempestivos,
Me censurando e...
Me empurrando pra baixo dos teus pés
Melhor assim,
Eu aqui, bebendo, e você
Perdendo tempo
Vendo os dias passando pela janela,
Tão escura,
Achando demais e perdendo a razão.
Me pedindo desculpa!!!
O problema nunca foi ela.
Aquela garota,
Só passou por aqui naquele dia de chuva
Com os olhos brilhando,
Me pedindo uma noite sincera.
Puta merda!
Nunca foi eu,
Sempre foi ela,
Nunca foi eu, sempre foi ela!
Por mim não preciso continuar mais essa tua vida
a que você escolheu pra ser minha
Só preciso continuar levando minha vida
Sem a tua paz!
Nem a minha!
Agora mais um trago barato, em outro
Dia, em outro bar qualquer, na chuva,
Sem teu medo nem tua culpa
Me escorando
Numa curva qualquer de balcão,
Escondida por trás de uma dose... um cigarro
Pra espantar os chatos, os fatos
De uma noite sórdida...
Você já não tá mais
Na minha órbita
Aí, assim não dá!
Hoje não,
Não,
Hoje não!
(Rodrigo Cordeiro/Rubens K)